Viracopos: o que falta para cancelar relicitação e definir permanência da atual gestora à frente do aeroporto? | Campinas e Região | G1

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  • Caso foi ao TCU para relicitação, mas objetivo da concessionária mudou

  • Aeroportos Brasil manifestou interesse em seguir na administração

  • TCU impôs condicionantes para manutenção de contrato

  • Concessão integral começou em 2013 e vale por 30 anos

  • Iniciativa privada prevê repactuação contratual

Caso foi ao TCU para relicitação, mas objetivo da concessionária mudou

Aeroportos Brasil manifestou interesse em seguir na administração

TCU impôs condicionantes para manutenção de contrato

Concessão integral começou em 2013 e vale por 30 anos

Iniciativa privada prevê repactuação contratual

1 de 4 Passageiros em Viracopos, Campinas — Foto: Aeroportos Brasil Viracopos

Passageiros em Viracopos, Campinas — Foto: Aeroportos Brasil Viracopos

O ministro de Portos e Aeroportos, Márcio França (PSB), afirmou, na segunda-feira (4), que o governo federal tem "todo o interesse" de que a concessionária Aeroportos Brasil, que administra o Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas (SP), permaneça à frente da gestão do terminal e espera que aconteça uma definição para colocar fim ao processo de relicitação até o "fim do ano".

O movimento sobre um "acordo amigável" entre as partes para que a concessionária não deixe a concessão se tornou possível depois do aval do Tribunal de Contas da União (TCU) e pedido formal da Aeroportos Brasil para se manter no ativo. A afirmação de França foi dada em um evento em Campinas para discutir o futuro do aeroporto.

Considerando que tanto a atual gestora quanto o governo federal querem um acordo pela permanência e já colocaram até uma previsão – ainda em 2023 -, o g1 conversou com o titular da pasta para entender o que falta efetivamente para a definição e confirmação de que não haverá um novo leilão e Viracopos não terá um novo concessionário. Entenda abaixo.

?E agora? Qual o próximo passo?

As duas primeiras etapas para encerrar o processo de relicitação e definir pela manutenção da concessionária eram, justamente, a autorização do TCU e manifestação formal por parte da Aeroportos Brasil, o que já foi feito.

Agora, as partes avançam para as novas fases que consistem, primeiro, na atual gestora cumprir com todas as 15 condicionantes colocadas pelo ministro relator do processo de relicitação no TCU, Vital do Rêgo, e, posteriormente, em um "acordo de contas" definido entre Viracopos, União, Secretaria de Aviação Civil (SAC) e Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) – estas últimas braços do Ministério de Portos e Aeroportos – para reequilibrar o contrato.

"O governo tem interesse que as empresas fiquem, o governo não tem interesse em trocar as empresas desde que elas possam fazer uma equação econômica. Claro, durante esse período da relicitação, nenhuma delas acabou cumprindo com as suas outorgas, mas o pagamento em si, para nós, não é tão relevante quanto a qualidade do serviços", destacou França, citando também o Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, que tem situação igual a de Viracopos.

? Obras de compensação e chance de gerir outros aeroportos

De acordo com o ministro, o reequilíbrio no contrato é importante, além de ser uma demanda da concessionária, porque a condição que a concessão foi assinada em 2012 não é mais a mesma. O aeroporto possui novos números de arrecadação e fluxo de passageiros e, além disso, tem outorgas que não foram pagas à Anac no momento mais crítico da crise financeira, o que precisa ser resolvido para que a permanência seja confirmada.

Márcio França ainda afirmou que algumas das possibilidades para acertar o impasse em relação aos pagamentos das outorgas são obras que a concessionária pode realizar na estrutura do terminal e também no entorno ou até assumir gestões de aeroportos que estejam com problemas e necessitem da intervenção de empresas que já têm conhecimento sobre a gestão de um ativo como esse. Em ambas as situações, a concessionária receberia uma compensação financeira.

E depois?

Após essas definições e de todo o ajustes de contas, é celebrado uma espécie de "novo contrato" e a atual concessionária fica em definitivo à frente da licitação. No entanto, o valor da outorga não pode ser modificado e nem o tempo de concessão. O contrato permanece o mesmo, mas apenas com algumas alterações em relação aos reequilibrios financeiros.

"De nossa parte, a gente tenta resolver até o final do ano não só aqui [em Viracopos], mas o Galeão e também o caso das rodovias. […] O que importa é você ter o formato jurídico que permite. Sem esse formato jurídico, ninguém conseguia. Agora existe esse formato jurídico e nós vamos tentar por ele e vamos tentar fazer até o final do ano", garantiu o ministro de Portos e Aeroportos.

2 de 4 Evento realizado em Campinas (SP) contou com presença do ministro Márcio França para discutir futuro de Viracopos — Foto: Marcello Carvalho/g1

Evento realizado em Campinas (SP) contou com presença do ministro Márcio França para discutir futuro de Viracopos — Foto: Marcello Carvalho/g1

? O impasse

A Aeroportos Brasil recorreu ao processo de relicitação como alternativa à crise financeira, em março de 2022, mas o processo ficou "travado" no TCU a partir do momento em que o ministro relator do caso, Vital do Rêgo, pediu um cálculo de indenização à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).

Neste contexto de impasse, a concessionária reuniu argumentos para mostrar que a continuidade é mais vantajosa para a operação do aeroporto. A vontade da concessionária, porém, era insuficiente porque a decisão para a medida não ser levada adiante deve ser de iniciativa do governo federal, o que foi possível após a manifestação positiva do ministro de Portos e Aeroportos, Márcio França.

? O que é a solução amigável da relicitação?

O g1 conversou com dois especialistas para entender o que é de fato a solução amigável que pode colocar fim à relicitação de Viracopos e quais implicações elas têm. Confira abaixo.

O contrato de concessão prevê, em caso de quebra da concessão pelo poder concedente, que é o governo federal, a possibilidade de solução amigável, desde que a concessionária prove que reúne condições de permanecer à frente do aeroporto. A informação é do advogado Luiz Felipe Pinto Lima Graziano, especialista em concessões.

De acordo com ele, no caso específico de Viracopos, não houve um descumprimento voluntário do contrato de concessão, mas sim um conjunto de fatores, "alguns alheios à concessionária", que forçaram a opção da relicitação e inviabilizaram o cumprimento do vínculo. Além disso, o advogado afirmou que a caducidade da concessão é uma opção da União e não uma obrigação.

"Quando se considera o conjunto de variáveis existentes, é preciso que se rememore que a lógica dos contratos de concessão é a sua manutenção. A relicitação deve ser considerada como exceção, aplicável apenas quando os problemas não possam ser resolvidos de outra forma que assegure a continuidade de contratação, em verdadeira alternativa menos traumática à declaração de caducidade", explicou.

? Quando ela acontece?

O advogado especialista em direito público e regulatório Felipe Estefam afirmou que a lógica da relicitação é a de assegurar a continuidade da prestação dos serviços. Portanto, caso a concessionária comprove as capacidades e habilitações necessárias para dar continuidade ao empreendimento, é mais vantajoso e mais eficiente que ele mesmo continue a execução contratual.

"Se assim for, será preciso desfazer o termo aditivo já firmado, bem como garantir todas as condições de habilitação do concessionário", disse.

3 de 4 Fachada do Tribunal de Contas da União — Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Fachada do Tribunal de Contas da União — Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

? Quais são os argumentos de Viracopos?

Antes de dar o aval para a permanência da concessionária à frente do ativo, o TCU analisou cinco pedidos de Viracopos colocados pela concessionária como essenciais para que o processo caminhe e que indicam a intenção do grupo de manter o contrato.

Entre os cinco pedidos da concessionária enviados ao TCU, está o argumento de que, em caso de realização de um novo leilão, é possível que o novo concessionário não assuma o empreendimento, ainda que pague a contribuição inicial, porque a Aeroportos Brasil, que faz a gestão do terminal desde 2012, afirma que só sairá se for completamente indenizada.

Além disso, a Aeroportos Brasil defende a qualidade da administração do terminal, que bateu recorde de passageiros em 2022, para argumentar de que seria ruim para o funcionamento do aeroporto a entrada de um novo concessionário. Veja todos os argumentos:

  • Argumento de que a viabilidade do projeto de relicitação depende do valor da indenização, tendo em vista que toda a indenização deve ser paga pelo concessionário entrante;
  • Argumento de que não há justificativa econômica para impor ao Erário o dever de quitar valor de indenização, na hipótese de o valor de outorga inicial ser inferior ao valor devido a título de indenização ao anterior contratado;
  • Argumento de que existe risco de o novo concessionário pagar a contribuição inicial e não assumir a operação do aeroporto, haja vista que a ABV somente sairá quando for integralmente indenizada;
  • Argumento sobre a excelência operacional de Viracopos, que não justificaria um processo de relicitação; (Aeroporto foi eleito em 2022 o 4º Melhor Aeroporto do Mundo pela AirHelp)
  • Argumento de que inexiste estudo técnico que justifique a vantajosidade das condições para a relicitação, em violação à supremacia do interesse público, o princípio da legalidade e o princípio da eficiência administrativa.

? Cálculo de indenização

O cálculo de indenização define qual valor seria pago ao atual concessionário e qual das partes envolvidas faria esse acerto em caso de relicitação. O impasse, que fez o processo não avançar, possibilitou que a concessionária reunisse argumentos para defender que um novo leilão seria mais prejudicial do que benéfico ao andamento do terminal.

‍⚖️ Arbitragem

A concessionária Aeroportos Brasil Viracopos, que administra a estrutura, aguarda a análise do TCU e se apega a uma Corte Internacional Arbitral, ou seja, um uma medida extrajudicial independente para definir regras sobre as indenizações pelos investimentos realizados, além de descumprimentos de contrato pela União, segundo a concessionária.

A arbitragem teve as primeiras decisões no início de fevereiro. A concessionária fez seis pedidos de reequilíbrios contratuais, os quais entende terem sido a principal razão para a crise financeira da estrutura que forçou o processo de relicitação.

Do total dos pedidos, a corte optou pela decisão contrária à concessionária ao extinguir do processo de arbitragem o pedido de Viracopos pelo não recebimento de tarifas cargas em perdimento, que ficam no armazém do aeroporto, e determinou que isso seja acordado entre o aeroporto e a Receita Federal.

O pedido de reequilíbrio pela não implementação do Trem de Alta Velocidade também foi negado. Entretanto, a concessionária teve decisão favorável no que considera o tema mais importante da arbitragem, que são as discussões sobre as desapropriações, principal queixa da concessionária para os problemas financeiros.

A Anac alega que não reequilibrou o contrato em relação às áreas do aeroporto que não foram desapropriadas porque isso estava condicionado à uma prévia demonstração por parte da concessionária de que aquele espaço seria de fato usado e, além disso, deveria ser provado um "prejuízo financeiro" efetivo com a não desapropriação.

A tese foi negada pela corte arbitral, o que aumenta a possibilidade da Aeroportos Brasil receber um valor por este desequilíbrio no contrato. A corte ainda vai avaliar os pedidos em decisão final.

Além destas questões que tiveram a primeira decisão parcial, há ainda outros três pedidos que aguardam julgamento: reequilíbrio de tarifa de carga aérea, reequilíbrio referente à Covid-19 e um terceiro sobre multa aplicada porque a concessionária não entregou as obras no prazo estipulado.

4 de 4 Torre do controle no Aeroporto de Viracopos, em Campinas — Foto: Fernando Pacífico/g1

Torre do controle no Aeroporto de Viracopos, em Campinas — Foto: Fernando Pacífico/g1

Dois anos de prazo

No dia 14 de junho do ano passado, o governo federal publicou uma resolução que prorrogou em dois anos o processo de relicitação de Viracopos. À época, a votação do edital no TCU havia sido retirada de pauta justamente por conta do pedido feito à Anac sobre as indenizações.

A relicitação foi a única a esperança da atual concessionária após a crise financeira que gerou uma dívida de R$ 2,88 bilhões – esse valor é de outorgas vencidas e dívidas com bancos que ainda vão vencer. O débito, inclusive, não está mais sob responsabilidade da concessionária porque foi incluído na arbitragem. O terminal foi o primeiro do Brasil a solicitar a devolução da concessão.

? A relicitação

O último plano de recuperação judicial do aeroporto foi protocolado à Justiça no dia 12 de dezembro de 2019. Desta data até o dia da aprovação, em fevereiro de 2020, Viracopos e os principais credores, entre eles a Anac e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), se reuniram para tentar chegar a um acordo e definiram que a proposta seria votada na assembleia desde que Viracopos aceitasse a relicitação.

Depois de aceita em assembleia, a recuperação judicial de Viracopos foi encerrada pela Justiça no dia 10 de dezembro de 2020. A partir disso, começou o processo de relicitação. Em agosto de 2021, a Anac aprovou o edital dela.

A concessionária já havia sinalizado a intenção de devolver a concessão em julho de 2017, mas emperrou na lei 13.448/2017, que regulamenta as relicitações de concessões aeroportuárias, ferroviárias e rodoviários do Brasil e só teve o decreto publicado em agosto de 2019.

? A crise de Viracopos

A crise de Viracopos se agravou na metade de 2017, quando manifestou o interesse da relicitação, mas, por conta da não regulamentação da lei, apostou na recuperação judicial para solucionar a crise. A Aeroportos Brasil protocolou o pedido em 7 de maio de 2018 na 8ª Vara Cível de Campinas. Viracopos também foi o primeiro aeroporto do Brasil a pedir recuperação.

O aeroporto sempre brigou por reequilíbrios no contrato de concessão por parte da Anac. De acordo com a concessionária, a agência descumpriu itens que contribuíram para a perda de receita da estrutura.

A Infraero detém 49% das ações de Viracopos. Os outros 51% são divididos entre a UTC Participações (48,12%), Triunfo Participações (48,12%) e Egis (3,76%), que formam a concessionária. Os investimentos realizados pela Infraero correspondem a R$ 777,3 milhões.

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