{"id":54364,"date":"2023-11-03T00:16:27","date_gmt":"2023-11-03T00:16:27","guid":{"rendered":"https:\/\/blog.corretoraideal.com.br\/?p=54364"},"modified":"2023-11-03T00:16:27","modified_gmt":"2023-11-03T00:16:27","slug":"qual-e-a-origem-da-obsessao-dos-argentinos-pelo-dolar-economia-g1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.corretoraideal.com.br\/index.php\/2023\/11\/03\/qual-e-a-origem-da-obsessao-dos-argentinos-pelo-dolar-economia-g1\/","title":{"rendered":"Qual \u00e9 a origem da obsess\u00e3o dos argentinos pelo d\u00f3lar | Economia | G1"},"content":{"rendered":"<br \/>\n<h1>Qual \u00e9 a origem da obsess\u00e3o dos argentinos pelo d\u00f3lar<\/h1>\n<h2>A cota\u00e7\u00e3o da moeda americana \u00e9 um dado central na vida dos argentinos \u2013 influencia n\u00e3o s\u00f3 a economia, mas tamb\u00e9m o humor e at\u00e9 a l\u00edngua do pa\u00eds sul-americano.<\/h2>\n<p>       <a href=\"http:\/\/www.bbc.com\/portuguese\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">    <\/a>   <\/p>\n<p> Por BBC <\/p>\n<p>  02\/11\/2023 20h17    Atualizado  02\/11\/2023    <\/p>\n<p>                         1 de 7&#013;A cota\u00e7\u00e3o da moeda americana \u00e9 um dado central na vida dos argentinos \u2013 influencia n\u00e3o s\u00f3 a economia, mas tamb\u00e9m o humor e at\u00e9 a l\u00edngua do pa\u00eds sul-americano. \u2014 Foto: Getty Images via BBC    <\/p>\n<p> A cota\u00e7\u00e3o da moeda americana \u00e9 um dado central na vida dos argentinos \u2013 influencia n\u00e3o s\u00f3 a economia, mas tamb\u00e9m o humor e at\u00e9 a l\u00edngua do pa\u00eds sul-americano. \u2014 Foto: Getty Images via BBC <\/p>\n<p> Costuma-se dizer que os argentinos acordam todas as manh\u00e3s e verificam tr\u00eas informa\u00e7\u00f5es essenciais: o clima, o tr\u00e2nsito e a cota\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar. <\/p>\n<p> &quot;O valor da moeda norte-americana integra as informa\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas comunicadas pela imprensa <a class href=\"https:\/\/g1.globo.com\/tudo-sobre\/argentina\/\">argentina<\/a>. Principalmente em tempos de turbul\u00eancia monet\u00e1ria\u201d, afirmam Mariana Luzzi e Ariel Wilkis em seu livro El d\u00f3lar: Historia de una moneda argentina (1930-2019) (&quot;D\u00f3lar: Hist\u00f3ria de uma moeda argentina&quot;, em tradu\u00e7\u00e3o livre, sem edi\u00e7\u00e3o no Brasil). <\/p>\n<p> A ironia do t\u00edtulo do livro, reconhece a autora, perderia-se caso o pa\u00eds finalmente se dolarizasse, como prop\u00f5e o candidato Javier Milei, pol\u00edtico libert\u00e1rio que disputa a presid\u00eancia da Argentina contra o ministro da Economia, Sergio Massa. O segundo turno da elei\u00e7\u00e3o ocorrer\u00e1 em 19 de novembro. <\/p>\n<p>         2 de 7&#013;Montagem fotogr\u00e1fica mostra Diego Maradona beijando a imagem do primeiro presidente dos Estados Unidos, George Washington, que ilustra as c\u00e9dulas de 1 d\u00f3lar. \u2014 Foto: Getty Images via BBC    <\/p>\n<p> Montagem fotogr\u00e1fica mostra Diego Maradona beijando a imagem do primeiro presidente dos Estados Unidos, George Washington, que ilustra as c\u00e9dulas de 1 d\u00f3lar. \u2014 Foto: Getty Images via BBC <\/p>\n<p> Em entrevista \u00e0 BBC News Mundo (servi\u00e7o da BBC em espanhol), Luzzi diz que o d\u00f3lar tem &quot;duas vidas&quot; na Argentina. <\/p>\n<p> Uma delas \u00e9 a privada, que \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o de moeda com a qual os argentinos poupam ou adquirem bens dur\u00e1veis como casas ou apartamentos. E outra \u00e9 a vida p\u00fablica, que ela considera mais importante. <\/p>\n<p>&quot;\u00c9 isso que faz a cota\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar aparecer em todos os nossos celulares, que ela chegue at\u00e9 n\u00f3s pelo aplicativo do banco onde temos conta ou pela carteira eletr\u00f4nica que usamos. Que liguemos a televis\u00e3o e ela apare\u00e7a no mesmo lugar que a temperatura a partir das 10h da manh\u00e3, quando o mercado abre. E que esteja na boca do povo, na piada, no meme.&quot;<\/p>\n<p> Mas a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas quantas &quot;vidas&quot; o d\u00f3lar tem na Argentina, mas tamb\u00e9m a quantidade de d\u00f3lares diferentes que existem no pa\u00eds. <\/p>\n<p> &quot;H\u00e1 uma obsess\u00e3o pelo d\u00f3lar que se baseia em fatos econ\u00f4micos, mas tamb\u00e9m h\u00e1 uma coisa ilus\u00f3ria: as pessoas dizem: &#x27;Como est\u00e1 o d\u00f3lar hoje? Como ele acordou?&#x27; \u00c9 como um monstro com vida pr\u00f3pria. Tamb\u00e9m tem m\u00faltiplas facetas, porque h\u00e1 muitas cota\u00e7\u00f5es do d\u00f3lar. Nem sei quantas s\u00e3o&quot;, diz Patricio Barton, comunicador e apresentador de r\u00e1dio. <\/p>\n<p> Ele tenta listar de mem\u00f3ria as diversas cota\u00e7\u00f5es. <\/p>\n<p>         3 de 7&#013;Patricio Barton acredita que os argentinos falam do d\u00f3lar como se a moeda americana tivesse vida pr\u00f3pria. \u2014 Foto: Arquivo pessoal\/Patricio Barton via BBC    <\/p>\n<p> Patricio Barton acredita que os argentinos falam do d\u00f3lar como se a moeda americana tivesse vida pr\u00f3pria. \u2014 Foto: Arquivo pessoal\/Patricio Barton via BBC <\/p>\n<p> <strong>As cota\u00e7\u00f5es do d\u00f3lar, segundo Patricio Barton<\/strong> <\/p>\n<p> H\u00e1 o d\u00f3lar oficial, que \u00e9 o ponto de partida, com o qual s\u00e3o realizadas as opera\u00e7\u00f5es de exporta\u00e7\u00e3o e importa\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p> Depois, h\u00e1 o d\u00f3lar blue, que normalmente vale o dobro da cota\u00e7\u00e3o oficial; \u00e9 a refer\u00eancia das ruas, o d\u00f3lar ilegal que alguns meios de comunica\u00e7\u00e3o chamam de &quot;informal&quot; como eufemismo. <\/p>\n<p> Temos o d\u00f3lar tur\u00edstico, que \u00e9 o que os turistas compram. H\u00e1 o d\u00f3lar Catar, taxa com a qual foram administradas as despesas com cart\u00e3o dos argentinos que foram \u00e0 Copa do Mundo. <\/p>\n<p> O d\u00f3lar luxo \u00e9 para bens de luxo comprados na Argentina. Existe um d\u00f3lar soja para os produtores de soja. <\/p>\n<p> O d\u00f3lar l\u00edquido, que s\u00e3o d\u00f3lares de reserva banc\u00e1ria. O d\u00f3lar futuro, que \u00e9 uma &quot;profecia&quot; de como ser\u00e1 o d\u00f3lar daqui a um ano. <\/p>\n<p> O d\u00f3lar Coldplay foi uma cota\u00e7\u00e3o para a banda que fez uns 10, 15 shows em est\u00e1dio na Argentina, ou seja, ganharam muito dinheiro que teve que ser pago a eles. <\/p>\n<p> Existe o d\u00f3lar de &quot;cabe\u00e7a grande&quot; e o d\u00f3lar de &quot;cabe\u00e7a pequena&quot;, que s\u00e3o as ef\u00edgies dos her\u00f3is americanos que est\u00e3o impressas nas notas de d\u00f3lar. Aqui, n\u00e3o se compram as notas &quot;de cabe\u00e7a pequena&quot;, mesmo elas sendo perfeitamente legais, ou te d\u00e3o menos dinheiro por elas. <\/p>\n<p> Se d\u00e1 inclusive nomes a d\u00f3lares que n\u00e3o existem. Se voc\u00ea quer trocar d\u00f3lares comigo e eu digo &quot;bom, esse \u00e9 o d\u00f3lar amigo&quot;, \u00e9 porque estou te dando com uma taxa de c\u00e2mbio amig\u00e1vel. <\/p>\n<p><h2>O verde e os &#x27;arbolitos&#x27;<\/h2>\n<\/p>\n<p> N\u00e3o apenas as cota\u00e7\u00f5es t\u00eam nomes pr\u00f3prios na Argentina: tamb\u00e9m foi criada uma linguagem particular em torno do d\u00f3lar, das pessoas que compram e vendem a moeda, do local onde ocorrem essas transa\u00e7\u00f5es, e assim por diante. <\/p>\n<p> &quot;Verde: d\u00f3lar, unidade monet\u00e1ria dos <a class href=\"https:\/\/g1.globo.com\/tudo-sobre\/estados-unidos\/\">Estados Unidos<\/a>.&quot; <\/p>\n<p> A defini\u00e7\u00e3o consta da terceira edi\u00e7\u00e3o do dicion\u00e1rio da Academia Argentina de Letras. <\/p>\n<p>&quot;\u00c9 raro ter lexicalizada uma palavra coloquial para uma moeda estrangeira. A lexicaliza\u00e7\u00e3o significa que uma palavra que tinha um significado adquiriu outro completamente diferente. \u00c9 um fen\u00f4meno poderoso&quot;, diz Santiago Kalinowski, diretor do Departamento de Lingu\u00edstica da Academia \u00e0 BBC News Mundo.<\/p>\n<p> &quot;Verde&quot;, al\u00e9m disso, serve para nomear outra das paix\u00f5es argentinas: o mate. <\/p>\n<p> Mas h\u00e1 muitas outras palavras que surgem da paix\u00e3o dos argentinos pelo d\u00f3lar. <\/p>\n<p>         4 de 7&#013;A \u00faltima edi\u00e7\u00e3o do dicion\u00e1rio da Academia Argentina de Letras foi publicada em 2019. \u2014 Foto: Arquivo pessoal\/Santiago Kalinowski via BBC    <\/p>\n<p> A \u00faltima edi\u00e7\u00e3o do dicion\u00e1rio da Academia Argentina de Letras foi publicada em 2019. \u2014 Foto: Arquivo pessoal\/Santiago Kalinowski via BBC <\/p>\n<p> <strong>O ABC do d\u00f3lar na l\u00edngua argentina, segundo Santiago Kalinowski<\/strong> <\/p>\n<p> A: ArbolitoB: BicicleteoC: Cueva <\/p>\n<p> A primeira defini\u00e7\u00e3o de arbolito (arvorezinha, em portugu\u00eas) era &quot;pessoa que recebe apostas clandestinas&quot;, mas os falantes costumam aproveitar algo que j\u00e1 conhecem para se referir a uma realidade nova. <\/p>\n<p> A segunda defini\u00e7\u00e3o de arbolito se aplica a pessoas que, nas ruas, se oferecem para trocar d\u00f3lares com o grito \u201ccambio, cambio\u201d. Essas pessoas se concentram principalmente nos entornos da City portenha, como \u00e9 chamada a regi\u00e3o do centro de Buenos Aires que concentra as sedes das principais institui\u00e7\u00f5es financeiras do pa\u00eds. <\/p>\n<p> \u201cArbolito: Doleiro ilegal que trabalha em vias p\u00fablicas.&quot; <\/p>\n<p> Para mim, o uso da palavra arbolito tem a ver com a atitude f\u00edsica na via p\u00fablica, que \u00e9 ficar ali como se fosse uma arvorezinha, &quot;plantado na cal\u00e7ada&quot;. <\/p>\n<p> Com B temos &quot;bicicleteo&quot; (pedalada), que se refere a todas essas especula\u00e7\u00f5es de vender d\u00f3lar pela manh\u00e3, comprar d\u00f3lar \u00e0 tarde; todo esse labirinto especulativo que temos. <\/p>\n<p> Com o C h\u00e1 a &quot;cueva&quot; (caverna), &quot;ag\u00eancia de c\u00e2mbio ilegal&quot;. H\u00e1 tamb\u00e9m &quot;cuevero&quot;, algo &quot;relacionado \u00e0 cueva de c\u00e2mbio&quot; ou &quot;membro ou funcion\u00e1rio de uma cueva de c\u00e2mbio&quot;. <\/p>\n<p> E a hist\u00f3ria continua: na letra D, tamb\u00e9m temos &quot;dolarizar&quot; e &quot;desdolarizar&quot;&#8230; <\/p>\n<p>         5 de 7&#013;Casa de c\u00e2mbio \u2014 Foto: Getty Images via BBC    <\/p>\n<p> Casa de c\u00e2mbio \u2014 Foto: Getty Images via BBC <\/p>\n<p><h2>Por qu\u00ea?<\/h2>\n<\/p>\n<p> Luzzi indica que h\u00e1 duas grandes explica\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas para a obsess\u00e3o pelo d\u00f3lar na Argentina: uma ela atribui ao efeito da infla\u00e7\u00e3o persistente e a outra, que n\u00e3o exclui o fator inflacion\u00e1rio, \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de economia perif\u00e9rica. <\/p>\n<p> A segunda refere-se, basicamente, ao fato de o pa\u00eds &quot;gerar atrav\u00e9s da exporta\u00e7\u00e3o de produtos e servi\u00e7os menos d\u00f3lares do que necessita para importar bens e servi\u00e7os e para pagar servi\u00e7os p\u00fablicos&quot;. <\/p>\n<p> Esta situa\u00e7\u00e3o agrava-se, acrescenta a soci\u00f3loga, quando se contrai mais d\u00edvida externa, &quot;porque a qualquer sa\u00edda de d\u00f3lares para, por exemplo, pagar importa\u00e7\u00f5es, \u00e9 necess\u00e1rio adicionar os d\u00f3lares que s\u00e3o necess\u00e1rios para pagar a d\u00edvida que foi contra\u00edda&quot;. <\/p>\n<p> O economista Fausto Spotorno comenta a quest\u00e3o do fator inflacion\u00e1rio. <\/p>\n<p>&quot;O d\u00f3lar \u00e9 o instrumento que o argentino usou para combater a infla\u00e7\u00e3o, para enfrentar a destrui\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do peso pela pol\u00edtica econ\u00f4mica argentina, o que n\u00e3o \u00e9 novo, tem 80 anos&quot;, diz o diretor da Escola de Neg\u00f3cios da Universidade Argentina da Empresa (Uade).<\/p>\n<p> Assim, a \u00fanica forma de poupar para a grande maioria dos argentinos n\u00e3o tem sido a moeda nacional, mas a moeda americana. <\/p>\n<p> Isso exclui, \u00e9 claro, aqueles que t\u00eam os recursos e o conhecimento para utilizar outros instrumentos financeiros, como a\u00e7\u00f5es ou t\u00edtulos de d\u00edvida, ou que simplesmente n\u00e3o t\u00eam a possibilidade de poupar. <\/p>\n<p>         6 de 7&#013;Fausto Spotorno diz que h\u00e1 uma grande desconfian\u00e7a entre os argentinos em rela\u00e7\u00e3o aos seus governos e \u00e0 capacidade de manter o valor da moeda nacional. \u2014 Foto: Arquivo pessoal\/Fausto Spotorno via BBC    <\/p>\n<p> Fausto Spotorno diz que h\u00e1 uma grande desconfian\u00e7a entre os argentinos em rela\u00e7\u00e3o aos seus governos e \u00e0 capacidade de manter o valor da moeda nacional. \u2014 Foto: Arquivo pessoal\/Fausto Spotorno via BBC <\/p>\n<p> Al\u00e9m da poupan\u00e7a, h\u00e1 outro uso para o d\u00f3lar, explica Spotorno. <\/p>\n<p> &quot;Se eu quiser fazer uma transa\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, por exemplo, tenho que pagar em d\u00f3lar. Por qu\u00ea? Porque, se eu quisesse usar pesos, precisaria alugar um caminh\u00e3o para colocar todas as notas que seriam necess\u00e1rias em uma transa\u00e7\u00e3o.&quot; <\/p>\n<p><h2>Desde quando?<\/h2>\n<\/p>\n<p> Para Spotorno, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida: tudo come\u00e7ou em 1946, quando o governo de Juan Domingo Per\u00f3n nacionalizou o Banco Central argentino. <\/p>\n<p> Dois anos antes, representantes de 44 pa\u00edses haviam se reunido na cidade de Bretton Woods, nos Estados Unidos, onde estabeleceram que o d\u00f3lar norte-americano seria a moeda das transa\u00e7\u00f5es internacionais. <\/p>\n<p>\u201cE a partir de 1946, exatamente no mesmo ano em que nacionalizamos o Banco Central, a infla\u00e7\u00e3o apareceu: foi de 26% naquele ano e n\u00e3o parou at\u00e9 chegarmos \u00e0 hiperinfla\u00e7\u00e3o em 1989&quot;, lembra Spotorno.<\/p>\n<p> Depois da crise de 1989, a Argentina adotou a conversibilidade que, explica o economista, consistia basicamente em atrelar o peso ao d\u00f3lar (1 d\u00f3lar valia 1 peso). <\/p>\n<p> Esta lua de mel com o d\u00f3lar terminou em dezembro de 2001 com um div\u00f3rcio brutal. As poupan\u00e7as em d\u00f3lares foram confiscadas pelo Estado e devolvidas em pesos no famoso &quot;corralito&quot; (outra palavra que consta do dicion\u00e1rio da Academia Argentina de Letras). <\/p>\n<p> Tanto antes de entrar na conversibilidade, como antes de sair dela, especulou-se sobre uma poss\u00edvel dolariza\u00e7\u00e3o da economia argentina, o que, no entanto, nunca foi concretizado. <\/p>\n<p> Mas Luzzi ressalta que o fato de a Argentina ter infla\u00e7\u00e3o desde meados do s\u00e9culo passado n\u00e3o significa que as pessoas come\u00e7aram imediatamente a comprar d\u00f3lares. Isso exigiu, como ele coloca, um processo de &quot;familiariza\u00e7\u00e3o com um elemento que antes estava completamente fora do repert\u00f3rio&quot; local. <\/p>\n<p> O especialista indica que o primeiro momento em que a moeda norte-americana foi capa dos jornais argentinos e virou not\u00edcia foi em janeiro de 1959, quando o presidente Arturo Frondizi lan\u00e7ou seu plano de estabiliza\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>&quot;De 1931 [ano da primeira regulamenta\u00e7\u00e3o do mercado de c\u00e2mbio na Argentina] at\u00e9 1959, a discuss\u00e3o sobre se o Estado deve intervir no mercado de c\u00e2mbio, ou se o c\u00e2mbio est\u00e1 caro ou barato, era uma discuss\u00e3o de especialistas em economia, de exportadores e importadores, mas n\u00e3o era uma discuss\u00e3o da agenda p\u00fablica&quot;, afirma.<\/p>\n<p> \u00c9 a partir de 1959 \u2013 em meio a um debate sobre a infla\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m sobre a abertura ao capital internacional e aos investimentos estrangeiros \u2013 que ocorre um processo de populariza\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar, que s\u00f3 aumentou desde ent\u00e3o. <\/p>\n<p> E at\u00e9 virou motivo de piadas. <\/p>\n<p> Em 1962, o comediante Mauricio Borensztein, mais conhecido como &quot;Tato&quot; Bores, questionou num famoso mon\u00f3logo televisivo por que o d\u00f3lar estava sempre em alta. <\/p>\n<p> &quot;Quando o Boca [Juniors] perde, o d\u00f3lar sobe tr\u00eas mangos [pesos]; no domingo que o Boca vence, o d\u00f3lar sobe quatro mangos. Anunciam frio para agosto e, pimba, o d\u00f3lar se perde de vista. Um ministro renuncia, as pessoas se assustam, o d\u00f3lar fica 8 pesos mais caro. Vem um ministro novo, o povo compra d\u00f3lares at\u00e9 as orelhas.&quot; <\/p>\n<p> Na segunda metade da d\u00e9cada de 1970 \u2013 com a liberaliza\u00e7\u00e3o do mercado cambial e a pol\u00edtica de abertura financeira do regime militar \u2013, Luzzi indica que o d\u00f3lar deixou de ser uma informa\u00e7\u00e3o relevante para se tornar uma ferramenta de opera\u00e7\u00f5es di\u00e1rias. <\/p>\n<p> O processo inflacion\u00e1rio que duraria uma d\u00e9cada, incluindo os sete anos de ditadura (1976-1983), deu o toque final \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar, que se tornou o principal m\u00e9todo de poupan\u00e7a. <\/p>\n<p> &quot;O peso j\u00e1 n\u00e3o servia mais&quot;, diz Luzzi. <\/p>\n<p><h2>O peso<\/h2>\n<\/p>\n<p> N\u00e3o se pode falar da obsess\u00e3o dos argentinos pelo d\u00f3lar sem falar de sua rela\u00e7\u00e3o conflituosa com a moeda nacional argentina, que mudou quatro vezes nos \u00faltimos 50 anos. <\/p>\n<p> Embora a Argentina tenha tido a mesma moeda (o peso moneda nacional) de 1881 a 1970, a partir de ent\u00e3o a infla\u00e7\u00e3o obrigou-a a mudar de nome (peso ley, peso argentino, austral, peso) e a remover zeros das notas com frequ\u00eancia crescente. <\/p>\n<p> Juntamente com os golpes de Estado (seis no s\u00e9culo 20), a constante desvaloriza\u00e7\u00e3o da moeda tem sido um dos traumas permanentes deste pa\u00eds. <\/p>\n<p> &quot;Para mim, a argentinidade sofre de transtorno de estresse p\u00f3s-traum\u00e1tico&quot;, diz a psic\u00f3loga cl\u00ednica Alicia Blanco. <\/p>\n<p> &quot;Temos uma esp\u00e9cie de inf\u00e2ncia de abusos e, sobretudo, uma mensagem d\u00fabia. Mensagens d\u00fabias para uma crian\u00e7a geram transtornos psicol\u00f3gicos&quot;, afirma. <\/p>\n<p> As &quot;mensagens d\u00fabias&quot; \u2013 dizer uma coisa e fazer outra \u2013 t\u00eam sido muito t\u00edpicas da hist\u00f3ria dos argentinos com o peso e o d\u00f3lar. <\/p>\n<p> Lorenzo Sigaut, que foi ministro da Economia de abril a dezembro de 1981, durante o governo ditatorial de Roberto Eduardo Viola, de fato disse que &quot;quem aposta no d\u00f3lar perde&quot;. Poucos dias depois, o peso se desvalorizou em 30%. <\/p>\n<p> No &quot;corralito&quot;, um governo democr\u00e1tico aprovou uma lei de intangibilidade dos dep\u00f3sitos (que pretendia proteger todos os dep\u00f3sitos, \u00e0 vista ou a prazo, em pesos ou moeda estrangeira, proibindo o Estado nacional de alterar condi\u00e7\u00f5es pactuadas entres depositantes e institui\u00e7\u00f5es financeiras) e poucos meses depois, confiscou todos os dep\u00f3sitos em d\u00f3lares. <\/p>\n<p> Aproveitando que, al\u00e9m de comprar d\u00f3lares e tomar mate, muitos argentinos frequentam regularmente o psic\u00f3logo, perguntamos a Alicia Blanco como ela descreveria a rela\u00e7\u00e3o entre os argentinos, o d\u00f3lar e o peso, se fossem \u00e0 terapia. <\/p>\n<p> <strong>Madame Bovary e o d\u00f3lar, segundo Alicia Blanco<\/strong> <\/p>\n<p> A argentinidade est\u00e1 ligada ao peso argentino, um peso que \u00e9 como ter um par desvalorizado 800 vezes, maltratado, de nome trocado. <\/p>\n<p> Ele ou ela n\u00e3o t\u00eam identidade. Voc\u00ea olha e diz: &quot;Com quem eu me casei? Quem eu escolhi?&quot; <\/p>\n<p> A\u00ed voc\u00ea come\u00e7a a fantasiar, como em qualquer relacionamento onde n\u00e3o se est\u00e1 satisfeito, onde n\u00e3o se est\u00e1 feliz. <\/p>\n<p> Voc\u00ea olha para o lado e v\u00ea o d\u00f3lar, o loiro de olhos azuis que durante 70 anos teve o respaldo do ouro. <\/p>\n<p> Ent\u00e3o voc\u00ea v\u00ea o magnata e se apaixona por ele, desenvolvendo uma paix\u00e3o que \u00e9 o que chamo de paix\u00f5es destrutivas. <\/p>\n<p> Podemos tomar como exemplo o modelo de Madame Bovary. <\/p>\n<p> Ela tem marido e se apaixona por um amante que \u00e9 um chantagista que a trai, que a manipula de todas as maneiras poss\u00edveis, mas ela acredita em tudo e o ama profundamente a ponto de querer abandonar o marido e o filho. <\/p>\n<p> E a\u00ed o cara, quando ela vai procur\u00e1-lo, n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1. E ela comete suic\u00eddio. Este \u00e9 o modelo de paix\u00e3o destrutiva por excel\u00eancia. <\/p>\n<p> \u00c9 como uma ansiedade, ou seja, ela n\u00e3o pode obter o que quer, mas continua desejando, e o desejo \u00e9 o que a mant\u00e9m nesse lugar. Ela sofre com o anseio, mas por causa da \u00e2nsia tamb\u00e9m recupera aquele olhar para o amante que \u00e9 inating\u00edvel. <\/p>\n<p><h2>Sem b\u00fassola<\/h2>\n<\/p>\n<p> Em outubro de 2023, o Instituto Nacional de Estat\u00edstica e Censos (Indec) da Argentina informou que a infla\u00e7\u00e3o de setembro foi de 12,7%, o valor mensal mais alto dos \u00faltimos 32 anos. E a taxa acumulada em 12 meses ultrapassou 138%. <\/p>\n<p> &quot;O que acredito que acontece com regimes de infla\u00e7\u00e3o t\u00e3o elevados como estes, ao n\u00edvel da experi\u00eancia pessoal, \u00e9 que num momento j\u00e1 n\u00e3o se tem refer\u00eancias, os pre\u00e7os relativos se perdem, j\u00e1 n\u00e3o se sabe o que \u00e9 caro e o que \u00e9 barato&quot;, afirma o fil\u00f3sofo Eial Moldavsky. <\/p>\n<p> &quot;Dois pares de t\u00eanis valem o mesmo que um aluguel. E voc\u00ea me pergunta: &#x27;Est\u00e1 errado, est\u00e1 certo?&#x27; N\u00e3o sei, n\u00e3o tenho como te dizer&quot;, exemplifica. <\/p>\n<p> A aus\u00eancia de referenciais impede qualquer possibilidade de planejamento, diz Moldavsky. <\/p>\n<p>&quot;\u00c9 muito dif\u00edcil ter um emprego e saber se, com aquele sal\u00e1rio que voc\u00ea negociou em mar\u00e7o e que lhe pareceu bom, voc\u00ea vai conseguir passar o ano de forma razo\u00e1vel, pagando aluguel e tendo mais ou menos uma vida normal.&quot;<\/p>\n<p> No seu Instagram, onde 1,5 milh\u00e3o de pessoas o seguem, Moldavsky analisa situa\u00e7\u00f5es do cotidiano e temores existenciais como o medo da rejei\u00e7\u00e3o ou o sentimento de culpa, enquanto passa roupa, rega plantas e arruma a casa. <\/p>\n<p> No meio do v\u00eddeo ele apresenta o pensamento de um fil\u00f3sofo que serve de refer\u00eancia para a compreens\u00e3o desses problemas. <\/p>\n<p> Perguntamos a ele: se o v\u00eddeo fosse sobre os argentinos e o d\u00f3lar, a qual fil\u00f3sofo recorreria? <\/p>\n<p>         7 de 7&#013;Eial Moldavsky diz que a maioria das pessoas da sua idade tem de trabalhar em dois ou mais empregos para pagar as despesas di\u00e1rias. \u2014 Foto: Arquivo pessoal\/ Eial Moldavsky via BBC    <\/p>\n<p> Eial Moldavsky diz que a maioria das pessoas da sua idade tem de trabalhar em dois ou mais empregos para pagar as despesas di\u00e1rias. \u2014 Foto: Arquivo pessoal\/ Eial Moldavsky via BBC <\/p>\n<p> <strong>Hannah Arendt e as ilhas num oceano de caos, por Eial Moldavsky<\/strong> <\/p>\n<p> \u00c9 muito dif\u00edcil, na verdade, saber qual marco te\u00f3rico se enquadra em algo t\u00e3o complicado como isso. <\/p>\n<p> Entendo que a rela\u00e7\u00e3o da Argentina com o d\u00f3lar tem a ver com a dificuldade que o pa\u00eds teve em construir estabilidade e previsibilidade; e bem, o d\u00f3lar apareceu como uma resposta quase intuitiva. <\/p>\n<p> Se quis\u00e9ssemos tra\u00e7ar um paralelo, pensar\u00edamos em algo como o que a fil\u00f3sofa alem\u00e3 Hannah Arendt diz sobre o futuro, como um mar completamente infinito, imposs\u00edvel de gerir e de prever. Cheio de indecis\u00f5es, de coisas que n\u00e3o controlamos, de coisas que n\u00e3o sabemos. <\/p>\n<p> E tenta-se criar pequenas ilhas para resistir ao caos que \u00e9 o futuro imprevis\u00edvel. <\/p>\n<p> O d\u00f3lar parece ser algo assim, a ilha que os cidad\u00e3os argentinos encontraram intuitivamente em momentos de crise. <\/p>\n<p> Parece-me que o d\u00f3lar apareceu como uma reserva de estabilidade no meio de todo esse caos. <\/p>\n<ul>\n<li> <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/tudo-sobre\/argentina\/\" class=\"entities__list-itemLink\" data-track-click=\"Argentina\"> Argentina <\/a> <\/li>\n<li> <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/tudo-sobre\/estados-unidos\/\" class=\"entities__list-itemLink\" data-track-click=\"Estados Unidos\"> Estados Unidos <\/a> <\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Qual \u00e9 a origem da obsess\u00e3o dos argentinos pelo d\u00f3lar A cota\u00e7\u00e3o da moeda americana \u00e9 um dado central na vida dos argentinos \u2013 influencia n\u00e3o s\u00f3 a economia, mas tamb\u00e9m o humor e at\u00e9 a l\u00edngua do pa\u00eds sul-americano. Por BBC 02\/11\/2023 20h17 Atualizado 02\/11\/2023 1 de 7&#013;A cota\u00e7\u00e3o da moeda americana \u00e9 um [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-54364","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blog.corretoraideal.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54364","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blog.corretoraideal.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blog.corretoraideal.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.corretoraideal.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.corretoraideal.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=54364"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/blog.corretoraideal.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54364\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":54366,"href":"https:\/\/blog.corretoraideal.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54364\/revisions\/54366"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blog.corretoraideal.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=54364"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.corretoraideal.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=54364"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.corretoraideal.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=54364"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}