{"id":57809,"date":"2024-02-21T09:29:43","date_gmt":"2024-02-21T09:29:43","guid":{"rendered":"https:\/\/blog.corretoraideal.com.br\/?p=57809"},"modified":"2024-02-21T09:29:43","modified_gmt":"2024-02-21T09:29:43","slug":"quem-e-o-agricultor-suico-que-inspirou-protagonista-da-novela-renascer-agronegocios-g1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.corretoraideal.com.br\/index.php\/2024\/02\/21\/quem-e-o-agricultor-suico-que-inspirou-protagonista-da-novela-renascer-agronegocios-g1\/","title":{"rendered":"Quem \u00e9 o agricultor su\u00ed\u00e7o que inspirou protagonista da novela &#039;Renascer&#039; | Agroneg\u00f3cios | G1"},"content":{"rendered":"<br \/>\n<h1>Quem \u00e9 o agricultor su\u00ed\u00e7o que inspirou protagonista da novela &#039;Renascer&#039;<\/h1>\n<h2>No Brasil desde a d\u00e9cada de 1980, Ernst G\u00f6tsch transformou fazenda degradada em o\u00e1sis no interior da Bahia.<\/h2>\n<p>       <a href=\"http:\/\/www.bbc.com\/portuguese\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">    <\/a>   <\/p>\n<p> Por Jo\u00e3o Fellet, Felix Lima <\/p>\n<p>  21\/02\/2024 05h31    Atualizado  21\/02\/2024    <\/p>\n<p>                      1 de 6&#013;Ernst G\u00f6tsch se mudou para o Brasil nos anos 1980 interessado em avan\u00e7ar em pesquisas iniciadas na Su\u00ed\u00e7a, seu pa\u00eds natal. \u2014 Foto: BBC    <\/p>\n<p> Ernst G\u00f6tsch se mudou para o Brasil nos anos 1980 interessado em avan\u00e7ar em pesquisas iniciadas na Su\u00ed\u00e7a, seu pa\u00eds natal. \u2014 Foto: BBC <\/p>\n<p> Jos\u00e9 Inoc\u00eancio, personagem interpretado pelo ator Marcos Palmeira no remake Renascer, da TV Globo, \u00e9 inspirado numa pessoa real: o agricultor su\u00ed\u00e7o Ernst G\u00f6tsch. <\/p>\n<p> Radicado no Brasil desde os anos 1980, G\u00f6tsch \u00e9 o criador da chamada &quot;agricultura sintr\u00f3pica&quot;, na qual a produ\u00e7\u00e3o de <a class href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/topics\/cr50y51yy55t?xtor=AL-73-%5Bpartner%5D-%5Bg1%5D-%5Blink%5D-%5Bbrazil%5D-%5Bbizdev%5D-%5Bisapi%5D\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">alimentos<\/a> e a <a class href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/topics\/c5qvpqj1dy4t?xtor=AL-73-%5Bpartner%5D-%5Bg1%5D-%5Blink%5D-%5Bbrazil%5D-%5Bbizdev%5D-%5Bisapi%5D\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">regenera\u00e7\u00e3o florestal<\/a> se combinam. \u00a0 <\/p>\n<p> Segundo a figurinista da novela, Marie Salles, Inoc\u00eancio segue n\u00e3o s\u00f3 o modo de vestir de G\u00f6tsch como sua filosofia de trabalho. &quot;\u00c9 como\u00a0se Z\u00e9 Inoc\u00eancio tivesse brotado da terra&quot;, ela disse ao jornal Folha de S\u00e3o Paulo. <\/p>\n<p> A <a class href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=MgknRntBFYo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">equipe da BBC j\u00e1 esteve na fazenda G\u00f6tsch<\/a> para entrevist\u00e1-lo e conhecer seu trabalho.\u00a0A reportagem abaixo foi publicada em 16 de novembro de 2021. <\/p>\n<p> <strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong> <\/p>\n<ul>\n<li><a class href=\"https:\/\/g1.globo.com\/economia\/agronegocios\/noticia\/2024\/02\/02\/o-que-significa-a-palavra-cabruca.ghtml\">&#x27;Cabruca&#x27; citada na novela Renascer come\u00e7ou h\u00e1 mais de 300 anos; saiba o que \u00e9<\/a><\/li>\n<li><strong>Vassoura-de-bruxa:<\/strong><a class href=\"https:\/\/g1.globo.com\/economia\/agronegocios\/noticia\/2024\/01\/23\/vassoura-de-bruxa-o-que-e-a-praga-relembrada-em-renascer-que-devastou-producao-de-cacau-na-bahia.ghtml\"><strong> <\/strong>o que \u00e9 a praga relembrada em &#x27;Renascer&#x27; que devastou produ\u00e7\u00e3o de cacau na Bahia<\/a><\/li>\n<\/ul>\n<p> *** <\/p>\n<p> Uma pupunheira atrai uma multid\u00e3o de p\u00e1ssaros japus \u00e0 entrada de uma fazenda em Pira\u00ed do Norte, no sul da Bahia. <\/p>\n<p> Ela foi a primeira da temporada a produzir um dos frutos mais apreciados pelo dono da propriedade, mas mesmo assim ele decidiu deix\u00e1-los para os p\u00e1ssaros. <\/p>\n<p> &quot;N\u00e3o tenho coragem de tirar&quot;, conta o su\u00ed\u00e7o Ernst G\u00f6tsch, de 73 anos, os \u00faltimos 40 naquele peda\u00e7o de ch\u00e3o. &quot;Aqui cada p\u00e1ssaro \u00e9 meu s\u00f3cio&quot;, completa. <\/p>\n<p> A cena diz algo sobre a filosofia que tornou G\u00f6tsch uma refer\u00eancia para muitos agricultores brasileiros. <\/p>\n<p> Enquanto v\u00e1rias pr\u00e1ticas agropecu\u00e1rias s\u00e3o apontadas como vil\u00e3s do clima, ele defende a ado\u00e7\u00e3o de sistemas agroflorestais, que combinam a produ\u00e7\u00e3o de comida com a regenera\u00e7\u00e3o de florestas. <\/p>\n<p> Enquanto secas intensas quebram safras pa\u00eds afora, ele ensina agricultores a &quot;plantar \u00e1gua&quot;, recuperando nascentes e fazendo com que suas planta\u00e7\u00f5es bombeiem mais \u00e1gua para a atmosfera. <\/p>\n<p> E, no sistema dele, todos os seres \u2014 quer sejam humanos, animais silvestres ou microorganismos \u2014 t\u00eam pap\u00e9is igualmente importantes. <\/p>\n<p> &quot;Eu plantei essa pupunheira, mas muitas outras na fazenda foram plantadas pelos japus&quot;, explica G\u00f6tsch. &quot;Eles me ajudam, eu os ajudo.&quot; <\/p>\n<p>         2 de 6&#013;Ernst G\u00f6tsch poda \u00e1rvores em sua agrofloresta em Pira\u00ed do Norte (BA). \u2014 Foto: BBC    <\/p>\n<p> Ernst G\u00f6tsch poda \u00e1rvores em sua agrofloresta em Pira\u00ed do Norte (BA). \u2014 Foto: BBC <\/p>\n<p><h2>Terra arrasada<\/h2>\n<\/p>\n<p> Quando o su\u00ed\u00e7o chegou ali, nos anos 1980, o cen\u00e1rio era outro. Quase todos os 510 hectares da propriedade haviam sido desmatados, e os animais silvestres eram raros. <\/p>\n<p> Os donos anteriores passaram anos criando porcos e cultivando mandioca de forma convencional, o que esgotou o solo e assoreou 14 riachos que cruzavam a fazenda. <\/p>\n<p> &quot;Dentro de pouco menos de dois anos, eu tinha reflorestado tudo&quot;, conta o su\u00ed\u00e7o, que tamb\u00e9m viu todos os riachos renascerem no processo. <\/p>\n<p> Hoje a maior parte da propriedade virou uma reserva ambiental privada, e somente 5 hectares \u2014 menos de 1% do terreno \u2014 lhe geram receitas. <\/p>\n<p> \u00c9 nessa \u00e1rea que, em meio a grande variedade de frutas, legumes e \u00e1rvores imensas, ele cultiva um cacau de alto valor, exportado para Portugal. <\/p>\n<p> Com tamanha oferta de alimentos, a fam\u00edlia do su\u00ed\u00e7o quase n\u00e3o precisa ir ao supermercado, e todas as constru\u00e7\u00f5es da fazenda s\u00e3o feitas com madeira tirada dali. <\/p>\n<p> A transforma\u00e7\u00e3o que G\u00f6tsch promoveu na fazenda chamou a aten\u00e7\u00e3o de governos, agricultores e empresas, que nas \u00faltimas d\u00e9cadas passaram a contrat\u00e1-lo para consultorias. <\/p>\n<p> Ele come\u00e7ou a rodar o Brasil dando cursos, e seus conhecimentos alcan\u00e7aram entidades t\u00e3o d\u00edspares quanto o Grupo P\u00e3o de A\u00e7\u00facar e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) (leia mais abaixo). <\/p>\n<p>         3 de 6&#013;Cacau cultivado na agrofloresta de Ernst G\u00f6tsch \u00e9 exportado para Portugal. \u2014 Foto: BBC    <\/p>\n<p> Cacau cultivado na agrofloresta de Ernst G\u00f6tsch \u00e9 exportado para Portugal. \u2014 Foto: BBC <\/p>\n<p><h2>A chegada ao Brasil<\/h2>\n<\/p>\n<p> Faz 40 anos que G\u00f6tsch come\u00e7ou a reflorestar sua fazenda na Bahia, mas quem visita a \u00e1rea hoje pode ter a impress\u00e3o de estar numa mata centen\u00e1ria. <\/p>\n<p> A equipe da BBC News Brasil esteve na propriedade no fim de outubro. Nos 160 quil\u00f4metros de estrada que ligam Ilh\u00e9us a Pira\u00ed do Norte, fazendas abandonadas exp\u00f5em a decad\u00eancia da regi\u00e3o, golpeada pela crise que atingiu o setor cacaueiro nos anos 1980 e jamais foi plenamente superada. <\/p>\n<p> A paisagem muda quando a rodovia adentra a propriedade de G\u00f6tsch. As copas das \u00e1rvores passam a cobrir o c\u00e9u, o ar fica mais \u00famido, os cantos de sapos e aves se tornam onipresentes. <\/p>\n<p> G\u00f6tsch chegou \u00e0 regi\u00e3o quando buscava terras para avan\u00e7ar em pesquisas iniciadas na Su\u00ed\u00e7a. <\/p>\n<p> Nascido em 1948 num vilarejo nos arredores de Zurique, ele diz ter tomado gosto pela agricultura desde seus primeiros anos. <\/p>\n<p>         4 de 6&#013;Hoje reflorestada, fazenda de Ernst G\u00f6tsch abriga uma reserva ambiental privada. \u2014 Foto: BBC    <\/p>\n<p> Hoje reflorestada, fazenda de Ernst G\u00f6tsch abriga uma reserva ambiental privada. \u2014 Foto: BBC <\/p>\n<p> Na adolesc\u00eancia, aprendeu a fazer queijo e cuidou de vacas nos Alpes. Aos 23, sem jamais ter se formado na faculdade, passou num concurso para trabalhar com melhoramento gen\u00e9tico de plantas. <\/p>\n<p> O trabalho ajudou a canalizar as energias de um jovem inquieto: G\u00f6tsch diz ter sido expulso da escola tr\u00eas vezes porque questionava os professores al\u00e9m da conta. <\/p>\n<p> Ele afirma que experimentos no laborat\u00f3rio o levaram \u00e0 seguinte quest\u00e3o: &quot;Ser\u00e1 que n\u00e3o seria mais inteligente se nos dedic\u00e1ssemos a melhorar as condi\u00e7\u00f5es que damos \u00e0s plantas, em vez de tentar adequ\u00e1-las \u00e0s condi\u00e7\u00f5es cada vez piores que lhes oferecemos?&quot; <\/p>\n<p> Chegou ent\u00e3o \u00e0 conclus\u00e3o de que nossos sistemas agr\u00edcolas deveriam imitar os ecossistemas originais. Mas ainda faltava p\u00f4r a teoria \u00e0 prova, o que seria dif\u00edcil na diminuta Su\u00ed\u00e7a. <\/p>\n<p> Ap\u00f3s trabalhos na Tanz\u00e2nia e na Costa Rica, um s\u00f3cio (este, humano) lhe ofereceu um empr\u00e9stimo para comprar uma propriedade grande na regi\u00e3o cacaueira baiana. <\/p>\n<p> G\u00f6tsch diz que fez quest\u00e3o de escolher uma terra empobrecida e que fosse considerada impr\u00f3pria para o cultivo de cacau pelo \u00f3rg\u00e3o federal respons\u00e1vel pelas pol\u00edticas para o setor, a Comiss\u00e3o Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac). &quot;Eu tinha de provar que sabia trabalhar&quot;, ele conta. <\/p>\n<p>         5 de 6&#013;Riacho que voltou a correr ap\u00f3s reflorestamento da fazenda de Ernst G\u00f6tsch. \u2014 Foto: BBC    <\/p>\n<p> Riacho que voltou a correr ap\u00f3s reflorestamento da fazenda de Ernst G\u00f6tsch. \u2014 Foto: BBC <\/p>\n<p><h2>&#x27;\u00c1gua se planta&#x27;<\/h2>\n<\/p>\n<p> Um dos primeiros desafios de G\u00f6tsch foi recuperar os riachos assoreados, o que ele fez abrindo valas nos cursos originais e reflorestando o entorno. <\/p>\n<p> As ra\u00edzes protegeram o solo da eros\u00e3o e permitiram que a \u00e1gua da chuva voltasse a infiltrar, trazendo os riachos de volta \u00e0 vida. <\/p>\n<p> Mas mais do que isso: ele afirma que o amadurecimento da floresta aumentou em 70% a quantidade de chuvas na fazenda. <\/p>\n<p> Isso porque, ao transpirar, as \u00e1rvores transferem \u00e1gua para a atmosfera, intensificando a forma\u00e7\u00e3o de nuvens. E, quanto mais plantas h\u00e1 num local, mais \u00e1gua \u00e9 bombeada. <\/p>\n<p> O processo, conhecido por evapotranspira\u00e7\u00e3o, est\u00e1 por tr\u00e1s do fen\u00f4meno dos &quot;rios voadores&quot;, pelo qual a \u00e1gua injetada na atmosfera pelas \u00e1rvores da Amaz\u00f4nia se transforma em chuva em v\u00e1rias partes da Am\u00e9rica do Sul. <\/p>\n<p> <a class href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-41118902?xtor=AL-73-%5Bpartner%5D-%5Bg1%5D-%5Blink%5D-%5Bbrazil%5D-%5Bbizdev%5D-%5Bisapi%5D\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">O que s\u00e3o os &#x27;rios voadores&#x27; que distribuem a \u00e1gua da Amaz\u00f4nia<\/a> <\/p>\n<p> Segundo G\u00f6tsch, o reflorestamento de sua propriedade fez com que chovesse mais em \u00e1reas que ficam a at\u00e9 8 km a oeste da fazenda. A recupera\u00e7\u00e3o dos riachos embasou uma das principais m\u00e1ximas que o su\u00ed\u00e7o difunde em cursos e palestras: a de que &quot;\u00e1gua se planta&quot;. <\/p>\n<p>         6 de 6&#013;Armaz\u00e9m de gr\u00e3os nos EUA; Revolu\u00e7\u00e3o Verde aproximou atividade agr\u00edcola da industrial. \u2014 Foto: Reuters    <\/p>\n<p> Armaz\u00e9m de gr\u00e3os nos EUA; Revolu\u00e7\u00e3o Verde aproximou atividade agr\u00edcola da industrial. \u2014 Foto: Reuters <\/p>\n<p><h2>\u00d3pera e trabalho intenso<\/h2>\n<\/p>\n<p> Aos 73 anos, Gotsch exibe uma disposi\u00e7\u00e3o impressionante. \u00c0s 5h, ele sai da casa onde mora com a mulher, Cimara Goulart, e as duas filhas adolescentes, Ilona e Genevieve, para vistoriar a secagem do cacau e da banana nas estufas que construiu. <\/p>\n<p> Depois vai manejar a agrofloresta: cantando \u00f3pera em alem\u00e3o, sobe em \u00e1rvores altas para colher frutos, poda galhos e golpeia o capim com um fac\u00e3o. <\/p>\n<p> A rotina se repete h\u00e1 quatro d\u00e9cadas, mas ele diz n\u00e3o enjoar. Delicia-se ao avistar fam\u00edlias de macacos que moram na fazenda e observa com aten\u00e7\u00e3o como cada esp\u00e9cie interfere no ambiente. <\/p>\n<p> &quot;Sempre que vejo aqui um bicho ou planta pela primeira vez, eu pergunto: &#x27;o que voc\u00ea faz de bom?&#x27;&quot;, diz. <\/p>\n<p> Tirar proveito das rela\u00e7\u00f5es entre as esp\u00e9cies \u00e9 outro pilar do modelo do su\u00ed\u00e7o. <\/p>\n<p> Afinal, diz G\u00f6tsch, cada bioma desenvolveu ao longo de bilh\u00f5es de anos intera\u00e7\u00f5es para que a vida ali tivesse o m\u00e1ximo \u00eaxito. Nada mais natural, portanto, que a agricultura pegasse carona nesses arranjos. <\/p>\n<p> Isso significa, na pr\u00e1tica, respeitar as condi\u00e7\u00f5es de que cada planta usufru\u00eda em seu estado natural, como a quantidade de luz. <\/p>\n<p> O cafezeiro e o cacaueiro, por exemplo, s\u00e3o oriundos de florestas tropicais, onde conviviam com \u00e1rvores bem mais altas antes de serem cultivados pelos humanos. Em sistemas agroflorestais, portanto, eles sempre est\u00e3o \u00e0 sombra de outras esp\u00e9cies \u2014 o que faz com que produzam mais e melhor, segundo G\u00f6tsch. <\/p>\n<p> O mesmo vale para v\u00e1rias outras plantas hoje cultivadas a sol pleno pela maioria dos agricultores, como o abacaxi, a laranja e a banana, mas que G\u00f6tsch aloca em diferentes &quot;andares&quot; de sua agrofloresta. <\/p>\n<p> O sistema busca otimizar o espa\u00e7o: em vez de preencher um terreno com uma \u00fanica esp\u00e9cie de determinada altura, produzem-se alimentos em v\u00e1rios estratos, com copas de \u00e1rvores e plantas sobrepostas. <\/p>\n<p> Para ele, ao contr\u00e1rio do que muitos pensam, as rela\u00e7\u00f5es entre esp\u00e9cies em ambientes naturais n\u00e3o se baseiam na concorr\u00eancia e na competi\u00e7\u00e3o, mas sim no &quot;amor incondicional e na coopera\u00e7\u00e3o&quot;. <\/p>\n<p> &quot;N\u00f3s n\u00e3o somos a esp\u00e9cie inteligente, n\u00f3s fazemos parte de um macrossistema inteligente&quot;, diz. &quot;Eu nunca fui roubado por uma planta, elas n\u00e3o mentem. A \u00e9tica delas \u00e9 perfeita, voc\u00ea pode confiar&quot;, prossegue. <\/p>\n<p> A no\u00e7\u00e3o se aplica at\u00e9 mesmo a insetos, v\u00edrus e fungos que muitos agricultores encaram como pragas, mas que G\u00f6tsch v\u00ea como &quot;amigos mensageiros&quot;. <\/p>\n<p> Segundo o su\u00ed\u00e7o, a presen\u00e7a deles em suas agroflorestas sinaliza que h\u00e1 algum ponto a melhorar, j\u00e1 que eles s\u00f3 agiriam quando as plantas experimentam condi\u00e7\u00f5es imperfeitas. <\/p>\n<p> Podem ainda indicar que as plantas atacadas j\u00e1 cumpriram seu ciclo \u2014 nesse caso, ajudam a reciclar nutrientes para que a vida se renove. <\/p>\n<p> Por isso, ele rejeita radicalmente o uso de agrot\u00f3xicos. E tamb\u00e9m dispensa fertilizantes qu\u00edmicos, pois diz que eles deixam os agricultores dependentes dos fabricantes e s\u00e3o desnecess\u00e1rios, j\u00e1 que a grande oferta de mat\u00e9ria org\u00e2nica em seus sistemas supre plenamente as plantas. <\/p>\n<p> Com a chamada Revolu\u00e7\u00e3o Verde, por\u00e9m, boa parte dos agricultores mundo afora tomou outro caminho. <\/p>\n<p> A partir dos anos 1930, o uso de fertilizantes qu\u00edmicos, agrot\u00f3xicos e de m\u00e1quinas se popularizou nas planta\u00e7\u00f5es, aproximando a atividade agr\u00edcola da industrial. <\/p>\n<p> \u00c1reas antes ocupadas por ricos ecossistemas passaram a abrigar extensas planta\u00e7\u00f5es de uma s\u00f3 esp\u00e9cie \u2014 caso da soja que hoje avan\u00e7a por v\u00e1rios biomas brasileiros. <\/p>\n<p> Defensores do modelo afirmam que as inova\u00e7\u00f5es foram essenciais para atender a uma crescente popula\u00e7\u00e3o global \u2014 e que \u00e9 poss\u00edvel usar produtos qu\u00edmicos nas lavouras com seguran\u00e7a. <\/p>\n<p> Mas G\u00f6tsch avalia que os m\u00e9todos s\u00e3o insustent\u00e1veis. Para ele, al\u00e9m de empobrecer as paisagens, gerar polui\u00e7\u00e3o e ignorar os ambientes naturais, a agricultura industrial moderna tem um grave problema: num mundo de recursos finitos, exige muito para funcionar e devolve pouco. <\/p>\n<p> Nas palavras de G\u00f6tsch, trata-se de um modelo com &quot;balan\u00e7o energ\u00e9tico negativo&quot;, na qual a produ\u00e7\u00e3o dos alimentos consome mais calorias do que gera. <\/p>\n<p> A conta considera a energia gasta com combust\u00edveis por m\u00e1quinas agr\u00edcolas e com atividades industriais e de minera\u00e7\u00e3o para produzir os fertilizantes e agrot\u00f3xicos usados nas planta\u00e7\u00f5es. <\/p>\n<p> No livro Agricultura Org\u00e2nica, de 2015, o agr\u00f4nomo Jacimar Luis de Souza diz que, em m\u00e9dia, a agricultura brasileira gasta 2,6 quilocalorias para produzir 1 quilocaloria de alimentos. <\/p>\n<p> &quot;A conta n\u00e3o fecha&quot;, diz G\u00f6tsch. <\/p>\n<p> A busca por um balan\u00e7o energ\u00e9tico positivo explica a express\u00e3o &quot;agricultura sintr\u00f3pica&quot; com que G\u00f6tsch batizou seu m\u00e9todo, inicialmente conhecido como &quot;agrofloresta&quot; ou &quot;agrofloresta sucessional&quot;. <\/p>\n<p> O termo &quot;sintropia&quot; dialoga com um conceito da F\u00edsica, a entropia, que mede a desordem das part\u00edculas de um sistema e sua capacidade de dissipar energia. <\/p>\n<p> A sintropia, ao contr\u00e1rio, diz respeito \u00e0 capacidade do sistema de acumular energia conforme ele se organiza e fica mais complexo. <\/p>\n<p> A agricultura sintr\u00f3pica, portanto, busca tornar os sistemas agr\u00edcolas cada vez mais complexos, com cada vez mais energia acumulada. <\/p>\n<p> Segundo G\u00f6tsch, hoje os humanos e seus animais de cria\u00e7\u00e3o s\u00e3o os \u00fanicos seres a tirar mais do planeta do que lhe oferecem. Da\u00ed sua defesa de um modelo agr\u00edcola que mude o quadro. <\/p>\n<p> &quot;Enquanto n\u00e3o conseguirmos suprir as necessidades di\u00e1rias do nosso metabolismo de um modo que seja ben\u00e9fico para o ecossistema, como todas as outras esp\u00e9cies fazem, n\u00e3o vamos ter futuro&quot;, afirma. <\/p>\n<p><h2>Capim africano e eucalipto<\/h2>\n<\/p>\n<p> No entanto, como j\u00e1 destru\u00edmos muitos biomas e afugentamos os animais silvestres, G\u00f6tsch defende alguns atalhos para reverter os preju\u00edzos e acelerar a transi\u00e7\u00e3o para um novo modelo. <\/p>\n<p> Um deles \u00e9 podar intensamente as plantas \u2014 cumprindo um papel que, em florestas saud\u00e1veis, dividir\u00edamos com v\u00e1rias outras esp\u00e9cies. Para isso, ele se vale inclusive de motosserras. <\/p>\n<p> As podas t\u00eam tr\u00eas fun\u00e7\u00f5es principais, segundo G\u00f6tsch: usar galhos e folhas para melhorar a qualidade do solo, regular a entrada de luz e for\u00e7ar o sistema a se desenvolver mais rapidamente. <\/p>\n<p> O outro atalho, mais pol\u00eamico, \u00e9 n\u00e3o se ater \u00e0s esp\u00e9cies nativas das regi\u00f5es onde as agroflorestas s\u00e3o implantadas. Em sua propriedade na Bahia, por exemplo, ele diz cultivar uma &quot;Amatl\u00e2ntica&quot;, pois a maioria das esp\u00e9cies presentes adv\u00e9m da Amaz\u00f4nia ou da Mata Atl\u00e2ntica, o bioma local, embora tamb\u00e9m haja plantas africanas, europeias e asi\u00e1ticas. <\/p>\n<p> Ele afirma que &quot;plantas n\u00e3o reconhecem fronteiras&quot; e podem conviver harmoniosamente mesmo que oriundas de ecossistemas diferentes, desde que ocupem os estratos apropriados e recebam os nutrientes necess\u00e1rios. <\/p>\n<p> Para ele, at\u00e9 mesmo esp\u00e9cies vistas como invasoras, como o eucalipto, a leucena e capins africanos, podem ter pap\u00e9is importantes em agroflorestas brasileiras. <\/p>\n<p> Isso porque essas esp\u00e9cies s\u00e3o pouco exigentes e produzem bastante mat\u00e9ria org\u00e2nica. Ao serem podadas com frequ\u00eancia, ficam sob controle e permitem que agroflorestas implantadas em solos degradados evoluam mais rapidamente, diz ele. <\/p>\n<p> Hoje seguidores de G\u00f6tsch aplicam seus m\u00e9todos em v\u00e1rias partes do Brasil e do mundo. <\/p>\n<p> Ele come\u00e7ou a dar cursos em 1989 a convite do ent\u00e3o Minist\u00e9rio da Reforma Agr\u00e1ria, no governo Jos\u00e9 Sarney. <\/p>\n<p> Depois trabalhou com outras institui\u00e7\u00f5es de governo, ONGs e cooperativas \u2014 como o Centro de Desenvolvimento Agroecol\u00f3gico Sabi\u00e1, a Agricultura Familiar e Agroecologia (AS-PTA) e a Cooperafloresta (Cooperativa de Agricultores Agroflorestais de Barra do Turvo). <\/p>\n<p> Tamb\u00e9m lecionou em outros pa\u00edses, como Espanha, Portugal e Alemanha. <\/p>\n<p> Na Bol\u00edvia, G\u00f6tsch compartilhou suas t\u00e9cnicas com uma organiza\u00e7\u00e3o, a Ecotop, que \u00e9 hoje uma das principais difusoras de sistemas agroflorestais no mundo, com projetos em v\u00e1rios pa\u00edses da \u00c1sia, \u00c1frica e Am\u00e9rica Latina. <\/p>\n<p> Ele estima que mais de 10 mil pessoas j\u00e1 tenham passado por suas aulas ou por cursos dados por ex-alunos. Um de seus pupilos, o educador Namast\u00ea Messerschmidt, \u00e9 hoje consultor do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), que tem estimulado a implanta\u00e7\u00e3o de agroflorestas em assentamentos da reforma agr\u00e1ria. <\/p>\n<p> Outras parcerias de G\u00f6tsch s\u00e3o vistas com reserva por alguns em seu universo. <\/p>\n<p> Entre 1993 e 1998, ele foi contratado pela fabricante de pneus francesa Michelin para desenvolver sistemas agroflorestais na Bahia focados na seringueira, que produz a borracha. <\/p>\n<p> Em 2013, come\u00e7ou a assessorar a Fazenda Toca, que fornece alimentos org\u00e2nicos para o Grupo P\u00e3o de A\u00e7\u00facar. <\/p>\n<p> Os trabalhos com grandes empresas deram mais visibilidade ao su\u00ed\u00e7o, mas geraram questionamentos entre quem os considerou uma contradi\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p> Para algu\u00e9m que luta contra a corrente, faz sentido se aliar a empresas bilion\u00e1rias? <\/p>\n<p> G\u00f6tsch diz que as parcerias foram oportunidades para aplicar seus m\u00e9todos em grande escala, algo que considera essencial para superar o modelo agr\u00edcola dominante. Nessa miss\u00e3o, ali\u00e1s, tem tentado desenvolver m\u00e1quinas que facilitem o manejo de grandes agroflorestas, embora se queixe do pouco interesse das fabricantes. <\/p>\n<p> Ele afirma ainda que, paradoxalmente, os trabalhos com os grandes ajudaram a difundir seus m\u00e9todos entre os pequenos. <\/p>\n<p> &quot;O pequeno, quando v\u00ea o vizinho grande fazendo alguma coisa, ele tem confian\u00e7a de que aquilo funciona&quot;, afirma. <\/p>\n<p> &quot;Antes eu era considerado um maluco. A partir daquele momento, come\u00e7aram a dizer: &#x27;o gringo est\u00e1 fazendo uma coisa interessante&#x27;&quot;. <\/p>\n<p> A agricultura sintr\u00f3pica de Ernst G\u00f6tsch integra um movimento global que abarca v\u00e1rias outras escolas e conceitos semelhantes, como a agricultura regenetativa, a agricultura biodin\u00e2mica, a agroecologia, a permacultura e os sistemas agroflorestais (SAFs). <\/p>\n<p> Esses sistemas t\u00eam sido apontados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC) como ferramentas para o combate \u00e0 crise do clima, pois retiram da atmosfera grande quantidade de g\u00e1s carb\u00f4nico, principal g\u00e1s causador do efeito estufa. <\/p>\n<p> Eles tamb\u00e9m s\u00e3o classificados como \u00fateis para a adapta\u00e7\u00e3o aos efeitos das mudan\u00e7as do clima. Em seu relat\u00f3rio de 2019, o IPCC afirmou que &quot;sistemas agroflorestais podem contribuir com a melhora da produtividade de alimentos ao mesmo tempo em que ampliam a conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade, o equil\u00edbrio ecol\u00f3gico e a restaura\u00e7\u00e3o sob condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas em muta\u00e7\u00e3o&quot;. <\/p>\n<p> Mas quanto da populariza\u00e7\u00e3o desses m\u00e9todos se deve a G\u00f6tsch? <\/p>\n<p> E n\u00e3o seriam esses sistemas deriva\u00e7\u00f5es de pr\u00e1ticas de povos ind\u00edgenas, que h\u00e1 s\u00e9culos cultivam seus alimentos em florestas biodiversas? <\/p>\n<p> Para Tatiana S\u00e1, uma das mais experientes pesquisadoras da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu\u00e1ria), G\u00f6tsch &quot;trouxe muitas coisas positivas&quot; e &quot;deu visibilidade sobre o potencial de sistemas que j\u00e1 vinham sendo tratados de outras formas, mas sem o jarg\u00e3o sintropia&quot;. <\/p>\n<p> Para ela, o su\u00ed\u00e7o veio ao Brasil muito focado em testar seus m\u00e9todos &quot;e foi aproveitando oportunidades&quot;. &quot;Ele come\u00e7ou a ter nichos de reconhecimento e recebeu muito espa\u00e7o midi\u00e1tico&quot;, diz S\u00e1. <\/p>\n<p> Afirma ainda que os m\u00e9todos do su\u00ed\u00e7o t\u00eam respaldo cient\u00edfico, ainda que ele n\u00e3o tenha forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica. <\/p>\n<p> Por\u00e9m, segundo ela, ao trabalhar com grandes, G\u00f6tsch pode t\u00ea-los ajudado a se &quot;apropriar de conceitos como agroecologia e sintropia&quot; enquanto lucram com o modelo agr\u00edcola dominante. <\/p>\n<p> E diz que G\u00f6tsch poderia &quot;dialogar mais com outras formas de conhecimento&quot; e se abrir mais a movimentos sociais do campo. <\/p>\n<p> Num meio onde ideais de esquerda predominam, o su\u00ed\u00e7o fala pouco de pol\u00edtica e exp\u00f5e vis\u00f5es que dificultam enquadr\u00e1-lo em alguma corrente. <\/p>\n<p> Por um lado, critica o PT por ter implantado pol\u00edticas que, segundo ele, deixaram os agricultores \u00e0 espera de solu\u00e7\u00f5es vindas do governo, em vez de busc\u00e1-las por conta pr\u00f3pria. <\/p>\n<p> Por outro, tampouco se identifica com o atual governo. Questionado sobre o presidente Jair Bolsonaro, responde, aos risos: &quot;N\u00e3o \u00e9 uma das pessoas mais inteligentes que eu conhe\u00e7o&quot;. <\/p>\n<p> G\u00f6tsch rejeita ainda a dicotomia entre agroneg\u00f3cio e pequenos agricultores, pois diz que muitas propriedades familiares hoje tamb\u00e9m adotam pr\u00e1ticas nocivas ao meio ambiente, como o uso de agrot\u00f3xicos. <\/p>\n<p> &quot;Tem muita gente fazendo errado dos dois lados&quot;, diz. <\/p>\n<p><h2>Ribeirinhos e ind\u00edgenas<\/h2>\n<\/p>\n<p> Para Osvaldo Kato, outro experiente pesquisador da Embrapa, G\u00f6tsch deu grande contribui\u00e7\u00e3o ao compartilhar suas t\u00e9cnicas de maneira did\u00e1tica. Ele afirma que o su\u00ed\u00e7o lecionou em v\u00e1rios cursos de capacita\u00e7\u00e3o da Embrapa entre 2005 e 2015. <\/p>\n<p> &quot;O trabalho dele \u00e9 muito pr\u00e1tico. Ele mostra como fazer, como manejar, e leva isso para as comunidades e os grupos de interesse&quot;, diz. <\/p>\n<p> Kato \u00e9 membro de outra fam\u00edlia que se destacou com sistemas agroflorestais no Brasil. Seus antepassados migraram nos anos 1920 do Jap\u00e3o para Tom\u00e9-A\u00e7u, no Par\u00e1. <\/p>\n<p> L\u00e1, depois de tentativas frustradas de cultivar pimenta-do-reino em monocultura, passaram a observar como ind\u00edgenas e ribeirinhos da regi\u00e3o plantavam v\u00e1rios alimentos para consumo pr\u00f3prio em meio \u00e0 floresta. <\/p>\n<p> Os japoneses come\u00e7aram ent\u00e3o a replicar e a sistematizar esse modelo, com foco comercial. <\/p>\n<p> Hoje a Cooperativa Agr\u00edcola Mista de Tom\u00e9-A\u00e7u (Camta), fundada por membros da comunidade, <a class href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/articles\/cpw3pg99l8vo?xtor=AL-73-%5Bpartner%5D-%5Bg1%5D-%5Blink%5D-%5Bbrazil%5D-%5Bbizdev%5D-%5Bisapi%5D\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u00e9 uma refer\u00eancia no Brasil na produ\u00e7\u00e3o agroflorestal de frutas<\/a>. <\/p>\n<p> Para Kato, h\u00e1 princ\u00edpios semelhantes entre a agricultura de ind\u00edgenas e ribeirinhos e a praticada por G\u00f6tsch e pela col\u00f4nia japonesa de Tom\u00e9-A\u00e7u, como a grande diversidade de esp\u00e9cies e a dispensa de insumos externos. <\/p>\n<p> A diferen\u00e7a principal, diz ele, \u00e9 a maneira como se renovam as planta\u00e7\u00f5es nos sistemas. Na agricultura ind\u00edgena, as \u00e1reas s\u00e3o abandonadas ap\u00f3s a colheita para que se regenerem naturalmente, e parte-se para a abertura de novas ro\u00e7as em outros locais, normalmente com o aux\u00edlio do fogo. <\/p>\n<p> J\u00e1 nos sistemas de G\u00f6tsch e de Tom\u00e9-A\u00e7u, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio esperar a regenera\u00e7\u00e3o natural e o fogo jamais \u00e9 empregado. <\/p>\n<p> Nesses modelos, quando uma agrofloresta chega \u00e0 maturidade, \u00e9 poss\u00edvel abrir clareiras no mesmo local para reiniciar o processo, aproveitando a fase inicial para cultivar alimentos que exigem mais luz, como hortali\u00e7as, milho e mandioca. Depois, conforme o sistema avan\u00e7a, privilegiam-se frutas e a extra\u00e7\u00e3o de madeira. <\/p>\n<p> Segundo Kato, o manejo sem fogo \u00e9 uma grande vantagem das agroflorestas, j\u00e1 que as queimadas geram emiss\u00f5es de g\u00e1s carb\u00f4nico, empobrecem o solo e podem fugir do controle. Al\u00e9m disso, ele afirma que a possibilidade de cultivar a mesma \u00e1rea repetidas vezes e sem interrup\u00e7\u00f5es \u00e9 valiosa num momento em que a popula\u00e7\u00e3o e a demanda por comida aumentam. <\/p>\n<p> &quot;Quando havia muita terra e menos gente, dava para deixar as \u00e1reas em pousio (repouso) at\u00e9 voltar a cultivar o alimento l\u00e1, mas n\u00e3o d\u00e1 mais tempo de fazer isso&quot;, afirma <\/p>\n<p> G\u00f6tsch reconhece que suas filosofias t\u00eam semelhan\u00e7as com as de ind\u00edgenas. &quot;No mundo inteiro, h\u00e1 fra\u00e7\u00f5es das popula\u00e7\u00f5es que t\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o mais harmoniosa com a natureza&quot;, diz. <\/p>\n<p> Ele elogia ainda os povos nativos das Am\u00e9ricas por terem nos legado plantas &quot;que achamos que s\u00e3o naturais, mas s\u00e3o cultivadas do M\u00e9xico \u00e0 Bol\u00edvia, do Equador ao Amap\u00e1&quot;, entre as quais o carro-chefe de sua planta\u00e7\u00e3o, o cacau. <\/p>\n<p><h2>Reflorestar o deserto?<\/h2>\n<\/p>\n<p> Depois de ensinar tantos a &quot;plantar \u00e1gua&quot;, o que G\u00f6tsch planeja para o futuro? <\/p>\n<p> &quot;Estou me dedicando a passar aquilo que achei significante para as futuras gera\u00e7\u00f5es&quot;, conta. <\/p>\n<p> Nos \u00faltimos anos, ele construiu alojamentos na fazenda para receber os alunos, a quem chama de &quot;estagi\u00e1rios&quot;. <\/p>\n<p> Muitos v\u00eam de grandes cidades e t\u00eam pouca ou nenhuma pr\u00e1tica com agricultura &#8211; fatores que, segundo G\u00f6tsch, permitem que aceitem mais facilmente seus conceitos. <\/p>\n<p> Mas o su\u00ed\u00e7o tem tamb\u00e9m planos mais ousados. Ele diz que, ao ajudar a implantar agroflorestas no Semi\u00e1rido brasileiro sem a necessidade de irriga\u00e7\u00e3o, passou a querer reflorestar um deserto. <\/p>\n<p> Ele diz ter iniciado conversas com o governo da Ar\u00e1bia Saudita para ajudar a trazer o verde de volta a partes do pa\u00eds hoje ocupadas por desertos. <\/p>\n<p> As tratativas avan\u00e7am lentamente por causa da pandemia, mas ele diz esperar um desfecho em breve. <\/p>\n<p> &quot;Quando voc\u00ea para de sonhar, n\u00e3o vive mais&quot;, diz G\u00f6tsch. <\/p>\n<p>                   <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-57811\" src=\"https:\/\/blog.corretoraideal.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/gente-do-campo-dona-lourdes-vive-de-agroecologia.jpeg\" alt=\"Gente do campo: Dona Lourdes vive de agroecologia\" width=\"800\" height=\"400\" \/>       <\/p>\n<p> Gente do campo: Dona Lourdes vive de agroecologia <\/p>\n<p>                    <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-57812\" src=\"https:\/\/blog.corretoraideal.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/gente-do-campo-valter-e-paula-criam-agroflorestas.jpeg\" alt=\"Gente do campo: Valter e Paula criam agroflorestas\" width=\"800\" height=\"400\" \/>       <\/p>\n<p> Gente do campo: Valter e Paula criam agroflorestas <\/p>\n<ul> <\/ul>\n<h3> <a id=\"js-next-article-desktop-link\" class=\"next-article-desktop-link\"><\/a> <\/h3>\n<h3> <a id=\"js-next-article-smart-link\" class=\"next-article-smart-link\"><\/a> <\/h3>\n<p>Veja tamb\u00e9m<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<p>       Anterior   Pr\u00f3ximo     <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem \u00e9 o agricultor su\u00ed\u00e7o que inspirou protagonista da novela &#039;Renascer&#039; No Brasil desde a d\u00e9cada de 1980, Ernst G\u00f6tsch transformou fazenda degradada em o\u00e1sis no interior da Bahia. Por Jo\u00e3o Fellet, Felix Lima 21\/02\/2024 05h31 Atualizado 21\/02\/2024 1 de 6&#013;Ernst G\u00f6tsch se mudou para o Brasil nos anos 1980 interessado em avan\u00e7ar em pesquisas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-57809","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blog.corretoraideal.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57809","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blog.corretoraideal.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blog.corretoraideal.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.corretoraideal.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.corretoraideal.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=57809"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/blog.corretoraideal.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57809\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57813,"href":"https:\/\/blog.corretoraideal.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57809\/revisions\/57813"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blog.corretoraideal.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=57809"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.corretoraideal.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=57809"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.corretoraideal.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=57809"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}